Relatório IBO 2026: o mercado mundial do mirtilo entra na era da hiperqualidade e da globalização

Relatório IBO 2026

Artigo escrito por Jorge Duarte (Hortitool Consulting) e Yathniel Djojdouhouin (Green Smile)

A International Blueberry Organization (IBO) publicou o seu Relatório 2026 sobre o estado mundial do setor do mirtilo. O setor prossegue o seu crescimento espetacular, mas as regras do jogo estão a mudar. Do aparecimento de novos gigantes da produção aos desafios climáticos, passando pela aceleração da corrida à qualidade premium, o relatório destaca as tendências que estão a reconfigurar esta categoria de elevado valor acrescentado.

Há dez anos, poucos teriam imaginado que a área mundial dedicada ao mirtilo pudesse mais do que duplicar e que os volumes de produção pudessem quase triplicar sem provocar um colapso dos preços. No entanto, é essa a trajetória traçada pelo mais recente relatório da IBO. Com 303 076 hectares plantados em 2025, dos quais 257 971 hectares em produção, e uma produção proveniente de cultivo que atinge 2,3 milhões de toneladas, o mirtilo confirma o seu estatuto de categoria frutícola de grande importância.

Atualmente, o setor está cada vez mais orientado para o mercado em fresco, que representa cerca de 77% da produção mundial, ou seja, perto de 1,79 milhões de toneladas, quando, há cerca de quinze anos, a repartição entre o mercado em fresco e a transformação era aproximadamente equilibrada.

A expansão do segmento em fresco não deve, contudo, ser confundida com o desaparecimento da transformação. Os mirtilos destinados ao mercado em fresco representam atualmente cerca de 77% do volume mundial, face a uma repartição mais equilibrada há cerca de quinze anos, o que indica que o consumo em fresco cresceu mais rapidamente do que a transformação. Esta continua, no entanto, a ser um destino importante para as variedades mais antigas e para os frutos que não cumprem os requisitos do mercado em fresco. A questão essencial para cada região produtora é, portanto, saber que parte do aumento da sua produção pode ser valorizada como fruta fresca premium comercializável, em vez de ser desclassificada devido a problemas de qualidade, de capacidade de conservação ou a limitações pós-colheita.

O crescimento do mercado em fresco não elimina a questão da transformação

Trata-se de uma evolução a favor do mercado em fresco, e não de uma transferência do fresco para a transformação. À medida que a categoria se desenvolveu, os volumes destinados ao mercado em fresco aumentaram mais rapidamente do que os destinados à transformação. O relatório descreve o segmento da transformação como estando, de um modo geral, numa fase de estabilização, embora as variedades mais antigas e os frutos que não cumprem os requisitos do mercado em fresco continuem a alimentar um fluxo importante destinado à indústria, nomeadamente no Canadá, no Chile e no Noroeste do Pacífico dos Estados Unidos.

A questão mais pertinente não é, portanto, saber se a produção adicional é simplesmente redirecionada para a indústria, mas antes se cada região produtora melhora, à medida que as áreas aumentam, a proporção de frutos comercializáveis no mercado em fresco. Os dados globais de produção não permitem, por si só, responder a esta questão. Para tal, são necessários dados detalhados por país e por variedade sobre a percentagem de frutos que cumprem os padrões premium, os defeitos, as desclassificações, a proporção destinada à transformação, os preços efetivamente obtidos e as perdas pós-colheita.

Uma nova geografia da produção mundial de mirtilos

O mapa mundial da produção está a passar por uma profunda transformação. Numa mudança histórica, as Américas, berço da cultura do mirtilo, representam agora menos de 50% da produção mundial. O mirtilo tornou-se uma cultura verdadeiramente mundial.

  • A Ásia regista um crescimento espetacular: impulsionada por uma rápida expansão, a China ultrapassou os 100 000 hectares plantados com mirtilos, cerca do dobro da área plantada nos Estados Unidos. A região Ásia-Pacífico avança a um ritmo notável, prevendo-se que a produção aumente 60% até 2029.
  • O Peru mantém a sua posição: apesar das fortes perturbações climáticas, nomeadamente as associadas ao El Niño, o Peru consolidou a sua posição como segundo maior produtor mundial de mirtilos frescos.
  • Marrocos afirma-se como um interveniente fundamental: na região EMEA (Europa, Médio Oriente e África), Marrocos está a reconfigurar a hierarquia estabelecida. O país já ultrapassou Espanha em área plantada e produz volumes superiores aos do México, ilustrando a força do seu modelo agrícola orientado para a exportação.

Rumo a um mercado a duas velocidades

Uma das principais constatações do relatório é a crescente «bimodalização» do mercado. Os consumidores e os distribuidores exigem padrões cada vez mais elevados: frutos de maior calibre, nomeadamente do tipo Jumbo, firmeza excecional, maior doçura e um período de conservação mais longo. Estas variedades de nova geração são cada vez mais procuradas, enquanto os frutos de qualidade padrão enfrentam margens mais reduzidas.

Cumprir as especificações mínimas já não basta: a excelência torna-se uma exigência para competir.

Da expansão à produção efetivamente valorizada

A próxima etapa do setor do mirtilo não será determinada por quem produz mais frutos, mas por quem consegue converter a maior proporção da sua produção em quilogramas de qualidade consistente, comercializáveis e rentáveis. Cerca de 15% da área mundial plantada ainda não atingiu a plena produção, o que significa que já se prevê a chegada de novos volumes ao mercado. Esta situação aumentará a pressão sobre os frutos que não cumprem os padrões em constante evolução em matéria de calibre, firmeza, sabor e capacidade de conservação.

O mercado entra num período de escassez sem falta de abastecimento: a oferta mundial continua a aumentar, mas os distribuidores podem, ainda assim, ter dificuldades em obter o fruto certo, no estado certo e no momento certo. A produtividade biológica constitui, por isso, uma medida incompleta do sucesso. Os indicadores verdadeiramente pertinentes são agora a percentagem de frutos que cumprem os padrões premium, o custo por quilograma vendido, a precisão das previsões de colheita e de volumes, a temperatura dos frutos e o tempo até ao pré-arrefecimento, o desempenho em termos de conservação, bem como os volumes rejeitados ou objeto de reclamações.

Num contexto em que os sistemas de produção com baixas necessidades de frio ou sem necessidades de frio enfrentam um aumento dos custos de investimento, de mão de obra e de fatores de produção, a competitividade dependerá cada vez mais do rigor na gestão dos sistemas de produção. Em algumas regiões de produção com elevadas necessidades de frio, a qualidade natural dos solos, o potencial de mecanização e os custos unitários mais baixos poderão permitir recuperar uma vantagem competitiva. Noutras regiões, a cultura em substrato, os túneis e o novo material genético serão indispensáveis para controlar os riscos climáticos e garantir uma produção precoce, regular e fiável.

As empresas vencedoras não serão simplesmente as que cultivam mirtilos: serão as que conseguem proporcionar, todas as semanas, uma experiência de consumo fiável e consistente, mantendo simultaneamente uma estrutura de custos que permita criar valor para toda a cadeia.

Clima, custos e inovação: os desafios da próxima década

A época em que o crescimento do setor do mirtilo era relativamente fácil chegou ao fim. Para atingir os 3,4 milhões de toneladas previstos até 2029, ou seja, cerca de um milhão de toneladas adicionais, o setor terá de enfrentar vários desafios de grande dimensão:

  1. As perturbações climáticas tornam-se a nova norma: os fenómenos meteorológicos extremos já não podem ser considerados anomalias isoladas. As secas, as ondas de calor e fenómenos como o El Niño obrigam os produtores a adaptar-se, nomeadamente através da cultura protegida e de variedades mais resilientes.
  2. Aumento dos custos e evolução do equilíbrio concorrencial: a inflação dos custos dos fatores de produção e da mão de obra afeta os produtores em todo o mundo. As regiões historicamente consideradas muito rentáveis para a produção com baixas necessidades de frio estão a assistir a um aumento dos seus custos, o que poderá voltar a reforçar a atratividade e a competitividade das regiões tradicionais de produção com elevadas necessidades de frio, onde a mecanização pode ser mais fácil de implementar.
  3. A tecnologia como instrumento essencial: o setor atingiu agora uma dimensão suficiente para sustentar o seu próprio ecossistema de inovação. A inteligência artificial, a robótica de apoio à colheita, os sistemas de produção em substrato e as novas abordagens genéticas surgem como ferramentas importantes para melhorar a rentabilidade futura.
  4. Grandes oportunidades, mas expectativas mais elevadas: a procura mundial continua a aumentar, sustentada pelo desenvolvimento de mercados em países como o Brasil e a Índia, pelo reforço do consumo interno nos países produtores e pelo aumento do consumo por habitante. Se o setor conseguir combinar a disponibilidade ao longo de todo o ano com uma qualidade gustativa consistentemente excelente, o mirtilo poderá ficar bem posicionado para se tornar um dos frutos mais populares do mundo.

A concorrência está, contudo, a intensificar-se. Os intervenientes mais bem posicionados para ter sucesso serão os que conseguirem assegurar uma execução consistente, adotar rapidamente as inovações e garantir uma qualidade excecional de forma duradoura.

Link original – https://www.greensmile.ma/fr/actualites/rapport-ibo-2026-le-marche-mondial-de-la-myrtille-entre-dans-lere-de-lhyper-qualite-et-de-la-mondialisation

Hortitool Consulting, Lda é uma consultora técnica agronómica especializada em culturas de pequenos frutos, com foco em soluções práticas, inovação técnica e transferência de conhecimento aplicado. Fundada em 2015 em Faro, Portugal, a empresa nasceu da experiência de campo do seu fundador, Jorge Duarte, que trabalha com culturas como morango, mirtilo, framboesa, amora e groselha desde 2004.

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