Sou agrónomo, não sou melhorador de plantas. Não pretendo que percorrer um campo me dê a resposta que anos de cruzamentos, genética e seleção podem dar.
Mas passo muito tempo em explorações de framboesa e, cada vez mais, em parcelas onde se observam novas seleções. Isso ensinou-me algo: antes de uma potencial variedade se tornar uma variedade comercial, tem de responder a uma longa lista de questões muito práticas.
Quando entro numa parcela de seleção, olho para a planta antes de olhar para a história que a rodeia.
O porte é suficientemente aberto? Onde estão os ramos laterais? Como se ramifica? Quantos espinhos tem? Podemos conduzi-la num sistema de suporte simples? Quem faz a colheita consegue ver o fruto e alcançá-lo sem passar metade do dia a afastar lançamentos?
Depois, olho para o fruto. O peso do fruto é importante, mas não basta. Observo o número, o tamanho e a coesão das drupéolas. Observo o desprendimento: o fruto solta-se rapidamente, mas mantém-se intacto? Observo a firmeza, a epiderme, a uniformidade e o sabor. E pergunto sempre como tudo isto se altera quando o dia está quente, quando a carga de frutos é elevada ou quando há muita humidade no túnel e pouca luz.
É nesse ponto que o entusiasmo por uma nova seleção se cruza com a realidade da exploração.
Todos gostamos de ver um novo fruto bonito. Todos queremos a próxima framboesa capaz de nos fazer dizer «uau». Mas um melhorador não está a selecionar um fruto. Está a selecionar uma resposta completa às exigências do campo, do trabalhador, da central de acondicionamento, do mercado e do consumidor.
O que a seleção em campo tem realmente de demonstrar
Na minha perspetiva, uma nova seleção não deve ser avaliada com base numa única colheita, numa única cuvete ou numa única campanha favorável. Tem de ser acompanhada ao longo de todo o seu percurso comercial.
Num tipo que frutifica nos lançamentos do ano, isso pode significar perguntar se o tamanho do fruto, a firmeza e a facilidade de colheita se mantêm ao longo de sete a doze semanas de colheita. Num tipo que frutifica nos lançamentos do segundo ano, pode significar avaliar se a planta consegue concentrar uma boa produção em quatro a seis semanas sem perder qualidade no pico da colheita.
Depois, há as opções de produção. A seleção apresenta um elevado grau de remontância e destina-se a uma única colheita nos lançamentos do ano? Consegue assegurar duas colheitas de forma consistente? É adequada a um sistema evergreen? Que datas de plantação funcionam? O que acontece quando a floração coincide com temperaturas elevadas? Forma frutos duplos? Desenvolve coloração irregular, frutos com a extremidade vermelha em «nariz de palhaço», extremidades verdes ou deformadas em «nariz de gato», frutos moles ou fraca coesão das drupéolas?
Estes não são aspetos secundários. São a expressão da genética em campo.
Para cada seleção considerada seriamente, gostaria de ver dados — e não apenas impressões — sobre:
- porte da planta, posição dos ramos laterais, densidade de espinhos e adequação ao sistema de suporte;
- período de colheita e produção comercializável por semana;
- peso do fruto no início, no pico e no final da colheita;
- firmeza, coesão das drupéolas, desprendimento e percentagem de frutos danificados;
- rendimento da colheita em quilogramas por pessoa e por hora;
- percentagem de frutos acondicionados na categoria I e perdas após passagem pela cadeia de frio efetivamente prevista;
- sabor no estado de maturação adequado, incluindo após condições de calor;
- floração, vingamento e defeitos em condições meteorológicas difíceis; e
- resposta à água, à nutrição e ao stresse climático.
As palavras importantes são por semana, sob stresse e em mais do que um ambiente. A produção anual total pode ocultar um final de campanha fraco, uma qualidade insuficiente no pico da colheita ou um período de colheita sem rentabilidade.
Porque é mais difícil manter uma característica do que encontrá-la
É aqui que o desafio do melhoramento se torna muito interessante.
Vejamos a frutificação nos lançamentos do ano, ou frutificação anual. Tem grande valor comercial porque pode permitir a floração e a frutificação na mesma estação de crescimento, o prolongamento da campanha e diferentes estratégias de produção. Mas esta característica não é simplesmente um rótulo que se possa atribuir a um novo genótipo.
A investigação em framboesa vermelha identificou uma associação entre a frutificação anual e dois loci, RiAF3 e RiAF4, nos grupos de ligação 3 e 4, além de um locus anteriormente descrito no grupo de ligação 7. O mesmo estudo ilustra bem por que razão a avaliação em campo continua a ser essencial: numa população F1 de 131 plantas avaliada ao longo de dois anos, 33 plantas não apresentaram o mesmo fenótipo de frutificação anual ou bienal nas duas campanhas.
É uma lição importante. A genética fornece-nos orientações relevantes, mas a expressão continua a ser influenciada pelo desenvolvimento da planta e pelo ambiente. A temperatura, o fotoperíodo, o historial de exposição ao frio e as condições da cultura podem alterar a regularidade da floração e o número de flores que efetivamente observamos no campo.
Por isso, quando pedimos uma planta que frutifique nos lançamentos do ano, com elevado grau de remontância, um longo período de colheita, frutos grandes, bom sabor, reduzidas necessidades de mão de obra e resiliência ao calor, não estamos a pedir uma única característica. Estamos a pedir que uma combinação muito difícil se mantenha estável perante condições variáveis.
A ausência de espinhos é outro exemplo útil. É fácil dizer que menos espinhos tornarão uma variedade mais eficiente. Na prática, o melhorador tem ainda de preservar a resistência adequada dos lançamentos, a arquitetura dos ramos laterais, a visibilidade dos frutos, a carga de frutos e a sanidade da planta.
Um estudo de 2026 sobre framboesa desenvolveu um painel de 5 639 SNP e avaliou 457 genótipos — 27 cultivares, 269 seleções de melhoramento e 161 descendentes F1 — ao longo de quatro anos. Identificou associações genéticas para o tamanho do fruto, o vigor da planta e a densidade de espinhos, incluindo um QTL de grande efeito para a ausência de espinhos no cromossoma 4.
É precisamente deste tipo de tecnologia que precisamos. Pode ajudar a eliminar mais cedo plantas de semente inadequadas e a concentrar o programa de campo em material melhor. Mas também mostra os limites de um marcador. Um marcador pode ajudar-nos a reduzir os espinhos; não nos pode dizer se a planta resultante permitirá uma colheita rápida, será estável sob calor ou será rentável para o produtor.
A genómica deve tornar o trabalho de campo mais inteligente
A questão não é saber se a genómica poupa tempo ou acrescenta custos. Pode fazer ambas as coisas.
Acrescenta custos se genotiparmos plantas sem um bom plano de fenotipagem, sem progenitores suficientemente diversos ou sem objetivos comerciais claros. Nesse caso, podemos produzir muitos dados e continuar sem saber ao certo quais são as seleções que realmente importam.
Poupa tempo quando é utilizada para tomar melhores decisões numa fase inicial:
- escolher progenitores que contribuam com qualidades verdadeiramente distintas;
- identificar características conhecidas antes de ocupar espaço de campo dispendioso;
- manter a diversidade na base de melhoramento;
- eliminar material com baixa probabilidade de sucesso; e
- concentrar o trabalho intensivo de campo, de pós-colheita e de avaliação sensorial nos melhores candidatos.
Para os programas de melhoramento mais pequenos, isto é particularmente importante. Não precisam de dispor de todas as tecnologias. Mas precisam de acesso a uma rede: serviços de genotipagem, protocolos de ensaio partilhados, diferentes ambientes de produção, laboratórios, avaliação sensorial, produtores comerciais e informação franca do mercado.
O futuro não é um melhorador sozinho com um marcador. É um melhorador com acesso a bons dados de campo.
O verdadeiro teste comercial começa após o lançamento
Quando falamos da longevidade de uma variedade, não quero dizer que todas as variedades de framboesa desapareçam ao fim de um número fixo de anos. Algumas variedades verdadeiramente importantes permanecem no mercado durante muito mais tempo porque trouxeram uma mudança relevante.
A expressão mais adequada é curva de adoção comercial. Uma variedade não é avaliada apenas pela data em que aparece num catálogo. É avaliada consoante a procura de plantas de viveiro aumenta, se mantém ou diminui depois de os produtores terem adquirido experiência com ela.
Pensemos numa nova variedade introduzida em 2014. Pode começar com 100 000 plantas no primeiro ano. Em 2016, começa a ser conhecida. Nos três anos seguintes, chega a Portugal, Espanha, Marrocos, México e outras regiões produtoras. Se a procura anual atingir três milhões de plantas, isso não é simplesmente marketing: o setor identificou uma razão económica para investir, expandir e replantar com essa variedade.
Depois vem a parte da curva que revela a realidade. Se a procura cair de três milhões de plantas para um milhão e meio depois de os ensaios comerciais se terem disseminado, há algo que merece ser compreendido. Pode tratar-se de um problema de tamanho do fruto numa fase mais tardia da campanha, de dificuldade de colheita, de fraca capacidade de conservação, de sensibilidade ao calor, de falta de aceitação por parte dos clientes ou de uma alternativa mais competitiva. Por vezes, os produtores continuam a plantá-la porque ainda não existe uma alternativa melhor disponível. A quebra nas vendas, por si só, não comprova uma causa específica, mas é um sinal forte de que a promessa comercial já não tem a força de antes.
Estes dados estão normalmente na posse dos viveiristas, dos melhoradores detentores das variedades e dos gestores de clubes, não em registos públicos. Mas quem acompanha o setor há anos reconhece o padrão: as vendas iniciais são confiança; as encomendas repetidas de plantas são prova; uma quebra sustentada após a utilização em várias regiões traduz perda de confiança comercial.
O catálogo pode mostrar um fruto magnífico. A cultura comercial tem de atravessar toda a campanha, com trabalhadores reais, stresse real e reclamações reais dos clientes.
É por isso que algumas variedades perdem expressão pouco depois do lançamento. Não é necessariamente porque a seleção original era fraca. Pode ser excelente num determinado local, num determinado sistema ou num determinado período de colheita. Mas foi lançada antes de os seus limites serem suficientemente compreendidos, ou sem uma vantagem suficientemente clara face ao que os produtores já têm.
O modelo de clube faz parte desta história. Não se resume a restringir o acesso ou a cobrar royalties. Quando bem utilizado, permite ao melhorador e ao comercializador escolher produtores capazes de gerir bem a cultura, concentrar a aprendizagem em regiões definidas, proteger a qualidade do fruto e realizar um investimento comercial sério em torno da genética. Isso pode proteger tanto a variedade como o produtor. Mas um clube não pode tornar-se uma forma de esconder um desempenho fraco. Deve permitir obter informação mais rápida e mais franca da exploração, da central de acondicionamento e do retalhista.
Para mim, a pergunta não é: quantas variedades novas podemos lançar? É: o que mudou com esta nova variedade?
Pode ser o tamanho do fruto. Pode ser a capacidade de conservação, o sabor, a estabilidade sob calor, a menor utilização de fatores de produção ou um período de colheita diferente. Mas tem de ser uma mudança real, avaliada por comparação com o padrão comercial. Se um candidato não conseguir demonstrar essa mudança em vários locais, campanhas e fases da cultura, continua a ser uma seleção. Ainda não é uma variedade que mereça ser lançada.
Melhorar com um objetivo: quilogramas comercializáveis por hora de trabalho de colheita
Este ano, tenho ouvido repetidamente a mesma mensagem de produtores e equipas comerciais: a estrutura de custos está a evoluir mais depressa do que a margem disponível para absorver erros.
A colheita está no centro desta questão. Na Flandres, o cultivo de framboesa tem diminuído nos últimos anos, apesar do aumento do consumo, e um projeto apoiado pela UE identifica a mão de obra de colheita como o principal custo de produção. O seu trabalho de redução das necessidades de mão de obra centra-se diretamente em características como a estrutura dos ramos, a formação de flores, o tamanho do fruto, a facilidade de colheita, a produtividade e a baixa densidade de espinhos.
Por isso, um programa tem de ter um objetivo claro. Em muitas situações europeias com custos elevados, o objetivo deve ser aumentar os quilogramas comercializáveis colhidos por pessoa e por hora.
Se um trabalhador colher, em média, quatro a cinco quilogramas por hora, elevar essa média realista para sete ou oito quilogramas por hora representaria aproximadamente mais 60–75% de rendimento. Isto não significa afirmar que uma variedade possa proporcionar esse resultado em todo o lado. É um objetivo sério de melhoramento e de ensaio. E não se alcança dizendo às pessoas que um fruto é «fácil de colher». Tem de ser demonstrado com dados de tempos de colheita, diferentes trabalhadores e condições de produção comercial.
O tamanho do fruto é uma parte fundamental da resposta. Um trabalhador que consiga encher uma cuvete com menos frutos, de maior tamanho, pode trabalhar mais depressa sem esforço adicional. Mas o objetivo não é apenas obter frutos grandes. Essa característica tem de estar associada a ramos laterais frutíferos visíveis, uma canópia aberta, baixa densidade de espinhos, desprendimento fácil e limpo, maturação uniforme, poucos danos e firmeza suficiente para manter elevada a percentagem de frutos acondicionados na categoria I. Frutos grandes que se partem, ficam pisados ou diminuem de tamanho no final da produção não melhoram a produtividade da colheita.
Este é o quadro prático de seleção que utilizaria:
Quilogramas comercializáveis por pessoa e por hora = acessibilidade dos frutos × tamanho útil do fruto × desprendimento limpo × uniformidade da maturação × percentagem de frutos acondicionados na categoria I.
Não é uma equação genética. É uma forma de deixar de olhar para as características isoladamente e de perguntar se o genótipo altera realmente os resultados económicos da exploração.
Esta não é apenas uma questão belga. Nos Países Baixos e noutras regiões com custos elevados, coloca-se a mesma pergunta: poderá a produção local de framboesa continuar a ser viável se os custos da mão de obra, da energia, da água e do cumprimento das exigências regulamentares continuarem a aumentar, enquanto o fruto é cada vez mais tratado como um produto corrente disponível durante todo o ano?
E a resiliência climática tem de ser avaliada em termos comerciais. Uma planta que sobrevive ao calor, mas produz frutos mais pequenos, com coloração deficiente, pouca firmeza ou uma menor percentagem de frutos aptos para acondicionamento, não resolveu o problema. A variedade do futuro tem de continuar a produzir frutos comercializáveis quando as condições são difíceis.
O momento «uau» tem de reunir todas as qualidades
Não quero que o melhoramento se torne defensivo: frutos mais firmes, frutos mais seguros, maior produção, menos riscos.
Continuamos a precisar de novos sabores, aromas e frutos que façam as pessoas voltar a apreciar framboesas. A categoria não crescerá simplesmente por haver fruta disponível durante 12 meses. Crescerá quando a experiência de consumo for suficientemente boa para que os consumidores voltem a comprar.
Mas o verdadeiro momento «uau» não será um fruto que só impressiona numa brochura. Será uma variedade que proporcione margem ao produtor, uma planta que permita ao trabalhador colher com eficiência, um fruto consistente à central de acondicionamento, menos desperdício ao retalhista e uma razão para o consumidor voltar a comprar.
Para mim, esta é a direção certa:
- utilizar a genómica para fazer uma triagem mais rápida;
- utilizar dados de campo para selecionar com maior rigor e franqueza;
- testar em condições de calor, humidade, stresse hídrico e com diferentes datas de plantação;
- avaliar os resultados económicos da colheita, não apenas os quilogramas por hectare;
- manter o sabor e o entusiasmo no índice de seleção; e
- dar aos produtores, aos retalhistas e à investigação pública um papel efetivo no processo de aprendizagem.
Nenhuma framboesa deixará toda a gente plenamente satisfeita. Mas, se ligarmos a tecnologia de melhoramento, uma boa agronomia, dados de campo rigorosos e as necessidades reais do mercado, teremos muito mais hipóteses de encontrar a próxima variedade que verdadeiramente transforme o setor.
É esse o momento «uau» que estou à espera de ver.
Contexto da investigação e do mercado
- Jibran et al. (2019), Frontiers in Plant Science: annual-fruiting loci RiAF3 and RiAF4 and multi-year phenotype inconsistency in raspberry
- Davik et al. (2026), PLOS ONE: 457 raspberry genotypes, four years of phenotyping and QTL for fruit size, vigour, thorn density and thornlessness
- EU CAP Network: labour reduction and picking-related varietal traits in Flemish raspberry production
- European Commission: BreedingValue results on genetic diversity, phenotyping and climate-ready berry breeding





