Crescimento no verão em estufas de plástico: eliminar primeiro o fator limitante

o fator limitante

Crescimento no verão em estufas de plástico: eliminar primeiro o fator limitante

Artigo Italian Berry – By Jorge Duarte

No verão, uma estufa de plástico deixa de ser apenas uma estrutura de proteção. Transforma-se numa máquina climática. O trabalho do produtor consiste em identificar o verdadeiro fator limitante, seja o calor, a radiação, o VPD, as raízes, a salinidade, a carga produtiva ou a ventilação, e eliminá-lo antes de a planta perder horas produtivas.

Verão sob plástico: identificar primeiro o fator limitante

Quando entro numa estufa de pequenos frutos em julho ou agosto, não começo por perguntar que produto deve ser aplicado.

Começo por uma pergunta mais simples:

O que está a limitar a planta hoje?

Na primavera, o plástico costuma ser um aliado. Protege as flores e os frutos da chuva, do vento e do granizo.

No verão, o mesmo plástico pode tornar-se o primeiro fator limitante do crescimento, porque retém energia, aumenta a procura evaporativa e pode prejudicar a polinização.

No caso das framboesas e das amoras, os túneis altos podem prolongar o período de colheita, melhorar a qualidade do fruto e reduzir a humidade da folhagem. No entanto, os guias técnicos também destacam a necessidade de assegurar uma rega regular e uma ventilação adequada para controlar a temperatura.

Na cultura do mirtilo, os ambientes protegidos podem antecipar a maturação, mas os túneis altos também podem aumentar a temperatura máxima do ar. Um estudo registou temperaturas máximas 7,2 °C superiores sob túnel, em comparação com uma estrutura coberta por rede antigranizo.

A proteção só é útil quando o clima no interior da estrutura continua a ser produtivo.

A minha regra prática é simples: nunca devemos tentar estimular uma planta sob stress com mais fertilizante antes de eliminarmos a causa desse stress.

Uma planta com os estomas fechados, folhas demasiado quentes, falta de oxigénio nas raízes ou uma CE elevada na zona radicular não responderá da mesma forma que uma planta equilibrada.

 

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A radiação é útil até se transformar em energia excedente

O crescimento no verão não depende apenas da temperatura do ar.

A cultura reage à temperatura das folhas e dos frutos. Um sensor instalado à altura da cabeça pode registar 31 °C, enquanto as folhas superiores e os frutos expostos apresentam temperaturas vários graus mais elevadas.

Quando a radiação ultrapassa a capacidade da cultura para a utilizar, a luz excedente transforma-se em calor.

A planta tenta arrefecer através da transpiração. Se a absorção de água não conseguir acompanhar essa necessidade, os estomas fecham, a fotossíntese diminui e a temperatura das folhas aumenta.

O sombreamento deve, por isso, ser utilizado como uma ferramenta de precisão, e não como uma reação de emergência.

O objetivo não é escurecer o túnel.

O objetivo é eliminar o excesso de energia durante as horas em que a cultura já não consegue utilizá-la de forma eficiente.

Em condições mediterrânicas, a aplicação exterior de um revestimento branco ou refletor antes de uma onda de calor é, muitas vezes, mais útil do que instalar uma rede escura no interior depois de os danos começarem.

As perguntas essenciais são:

• Qual deve ser o nível de sombreamento?

• Durante quantas horas?

• Em que fase fenológica da cultura?

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VPD: o stress invisível

A humidade relativa, por si só, é um indicador pouco preciso.

A planta não sente a humidade como uma percentagem. Sente o poder de secagem do ar.

Esse poder de secagem corresponde ao défice de pressão de vapor, ou VPD.

Um VPD elevado aumenta a procura transpiratória, reduz o potencial hídrico da planta, altera o comportamento dos estomas e pode diminuir a fotossíntese e a absorção de nutrientes.

Isto explica muitas das contradições observadas durante o verão.

Um substrato pode parecer húmido enquanto a parte aérea da planta já se encontra sob stress.

A zona radicular pode conter água, mas a atmosfera pode estar a exigir água a uma velocidade superior à capacidade de fornecimento das raízes.

No caso dos pequenos frutos, o objetivo deve ser manter uma procura evaporativa moderada e estável.

Deve existir transpiração suficiente para arrefecer a planta e transportar os minerais, mas não ao ponto de levar a planta a entrar em modo de defesa.

 

A ventilação continua a ser a primeira tecnologia de arrefecimento

Antes de investir em sistemas de arrefecimento complexos, verifico se a estufa consegue respirar.

Muitos túneis de plástico sobreaquecem porque a camada de ar quente situada acima da cultura não é removida com rapidez suficiente.

As aberturas laterais podem ser demasiado pequenas, as extremidades dos túneis podem estar fechadas, as redes anti-insetos podem ser demasiado densas ou a vegetação pode bloquear a circulação do ar.

As recomendações gerais para estufas mantêm a mesma mensagem essencial: a ventilação e o sombreamento são as primeiras ferramentas para evitar o sobreaquecimento.

A ventilação deve começar cedo.

Abrir as laterais depois de a estrutura já ter acumulado calor é uma decisão tardia.

Durante a manhã, o objetivo deve ser impedir que o túnel se transforme numa bateria térmica.

Os ventiladores podem reduzir as zonas de ar estagnado, mas não substituem a renovação do ar.

Um ventilador que apenas faz circular ar quente dentro de um túnel fechado não está a arrefecer a cultura.

Os sensores devem ser instalados na zona da cultura e, de preferência, em mais do que uma posição, porque a zona mais desfavorável pode determinar o resultado comercial de toda a produção.

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O arrefecimento com água pode ajudar, mas sem aumentar o risco de doença

O arrefecimento evaporativo pode ser útil em climas secos, mas a água utilizada para arrefecer o ar não desempenha a mesma função que a água aplicada na rega da zona radicular.

A nebulização fina deve reduzir a temperatura e o VPD sem deixar flores, folhas ou frutos molhados durante períodos prolongados.

As flores molhadas podem comprometer a qualidade da polinização.

Os frutos molhados e as copas densas e húmidas favorecem o desenvolvimento de Botrytis.

No caso das framboesas e das amoras, uma das principais vantagens dos túneis de plástico consiste em manter a parte aérea da planta seca.

As recomendações da Universidade do Minnesota para a produção de framboesas em túneis altos aconselham a utilização de rega gota a gota e fertirrega e alertam para os riscos da rega por aspersão, uma vez que esta elimina uma das principais vantagens do túnel na gestão das doenças.

A regra prática é clara:

Utilizar a água para arrefecer o ar, e não para molhar a cultura.

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A zona radicular é o motor escondido

Muitos dos problemas de verão que observamos na parte aérea da cultura começam na zona radicular.

As raízes precisam de fornecer água com rapidez suficiente para acompanhar a transpiração, mas também necessitam de oxigénio.

Um substrato saturado e quente representa um risco elevado.

A planta murcha, o produtor aumenta a rega e o oxigénio disponível para as raízes torna-se ainda mais limitado.

Esta é uma armadilha clássica do verão.

Nos sistemas em substrato, a rega deve ser curta, frequente e ajustada à radiação e à drenagem, e não apenas ao relógio.

A primeira rega deve ocorrer antes de a planta entrar em défice hídrico.

A drenagem permite confirmar se os sais estão a ser corretamente lixiviados.

Quando a procura evaporativa é elevada, as plantas absorvem água mais rapidamente do que nutrientes. Como resultado, a CE pode aumentar na zona radicular mesmo quando a CE da solução nutritiva permanece inalterada.

O mirtilo exige uma atenção especial.

Vasos pretos, sacos expostos e volumes reduzidos de substrato aquecem rapidamente.

Recipientes brancos, coberturas refletoras, um nível moderado de humidade no substrato, uma drenagem eficiente e a proteção contra a exposição solar direta podem gerar mais crescimento durante o verão do que um novo aumento da fertilização.

Um sistema radicular fresco e bem arejado não é um detalhe.

É a sala das máquinas da cultura.

Nutrição: não estimular aquilo que a planta não consegue assimilar

Quando o crescimento abranda no verão, a fertilização é frequentemente apontada como a primeira causa.

Por vezes, a nutrição faz parte da resposta, mas raramente é o primeiro fator limitante.

Se a planta fecha os estomas todas as tardes, o problema não é a falta de nitrato.

Se a CE da zona radicular estiver elevada, uma solução nutritiva mais concentrada poderá dificultar ainda mais a absorção de água.

Se as raízes tiverem pouco oxigénio, a presença de cálcio no tanque não garante a sua chegada ao fruto.

O azoto deve ser gerido com prudência durante os períodos de calor.

O excesso de azoto origina tecidos mais frágeis, copas mais densas, níveis de humidade mais elevados, maior risco de ácaros e maior pressão de doenças.

O potássio continua a ser importante para o enchimento dos frutos, o transporte de açúcares e a regulação dos estomas, mas deve manter-se equilibrado com o cálcio e o magnésio.

A hierarquia deve permanecer simples:

  1. Clima
  2. Água
  3. Raízes
  4. Nutrição

A carga produtiva e a copa determinam se o crescimento continua

Uma planta sob stress durante o verão não consegue suportar a mesma carga produtiva que uma planta equilibrada durante a primavera.

A carga de frutos, a densidade das varas, a idade das folhas e a arquitetura das linhas determinam se a planta dispõe de hidratos de carbono suficientes para crescer, encher os frutos e renovar-se.

Nas framboesas, um número excessivo de varas cria uma parede vegetal que retém humidade e calor.

Nos morangueiros, o excesso de folhas antigas aumenta a transpiração e o risco de doença. No entanto, uma desfolha agressiva durante uma onda de calor expõe as coroas e os frutos.

Nos mirtilos produzidos em recipientes, uma carga produtiva excessiva depois de uma campanha com desenvolvimento radicular deficiente pode interromper o crescimento vegetativo após a colheita.

O objetivo deve ser manter uma copa funcional.

Cada folha deve produzir hidratos de carbono, ajudar a arrefecer a planta ou proteger os frutos.

As folhas que apenas bloqueiam a circulação do ar e retêm humidade passam a fazer parte do problema.

A poda de verão deve abrir a cultura de forma gradual.

Uma exposição repentina após uma poda intensa pode provocar escaldão solar e aumentar a temperatura dos frutos.

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A floração revela o stress térmico escondido

As flores são frequentemente mais sensíveis ao calor do que as folhas.

As revisões científicas sobre o stress térmico no morangueiro mostram efeitos na fotossíntese, no equilíbrio hídrico, na regulação hormonal, na diferenciação dos botões florais, na viabilidade do pólen, no vingamento dos frutos e na qualidade final.

Os estudos com variedades remontantes de morangueiro também demonstram que as temperaturas elevadas podem afetar o desenvolvimento dos frutos e a concentração de açúcares.

O sintoma comercial pode surgir mais tarde, sob a forma de frutos deformados, calibre reduzido ou cachos pouco desenvolvidos.

Contudo, a causa começou muitas vezes durante a floração.

Os polinizadores também devem ser considerados parte integrante do sistema.

Um túnel que apresenta condições toleráveis para o crescimento vegetativo pode continuar demasiado quente para assegurar uma boa polinização.

Durante os picos de floração, a gestão preventiva do clima é mais eficaz do que tentar explicar as deformações depois do início da colheita.

Um protocolo prático para o verão

O produtor não precisa de um laboratório, mas a gestão de verão exige um painel diário de indicadores:

• Temperatura máxima do ar à altura da copa

• Humidade relativa

• VPD calculado

• Humidade do substrato

• Percentagem de drenagem

• CE da drenagem

• pH da drenagem

• Hora de início da rega

• Número de pulsos de rega

Sempre que possível, deve também ser medida a temperatura superficial das folhas ou dos frutos.

O sensor mais útil não é necessariamente o mais caro.

É aquele que altera as decisões.

Antes de uma onda de calor

• Aplicar ou reforçar o sombreamento.

• Limpar as aberturas de ventilação.

• Verificar bombas e filtros.

• Lixiviar os sais acumulados.

• Confirmar a drenagem.

• Reduzir cargas produtivas excessivas.

• Proteger vasos ou sacos expostos.

Durante a onda de calor

• Ventilar desde cedo.

• Evitar podas agressivas.

• Aplicar pulsos de rega mais curtos e frequentes.

• Utilizar arrefecimento evaporativo apenas quando este não molhar as flores ou os frutos.

• Colher durante as horas mais frescas.

Depois da onda de calor

• Inspecionar as raízes.

• Verificar a CE da drenagem.

• Procurar sinais de aumento da população de ácaros.

• Avaliar o risco de Botrytis.

• Acompanhar o próximo fluxo de floração.

• Corrigir a copa de forma gradual.

A sequência é importante.

Um produtor que espera até as folhas começarem a murchar já está a gerir danos.

Um produtor que atua com base no VPD, na temperatura das folhas, na CE da drenagem e no comportamento das plantas está a trabalhar de forma preventiva.

Observação tradicional aliada a dados precisos

Os bons produtores sempre souberam interpretar as plantas.

Observam o ângulo das folhas, a firmeza dos frutos, a cor dos novos crescimentos, o cheiro do substrato, o comportamento das abelhas e a velocidade de recuperação da planta durante a manhã.

Este conhecimento continua a ser essencial.

Os sensores não o substituem.

Apenas atribuem valores concretos àquilo que o olhar experiente já suspeita.

O futuro da produção protegida de pequenos frutos passa por tornar a estufa mais seletiva:

• Menos radiação excedente

• Menos chuva sobre os frutos

• Menos danos provocados pelo vento

• Uma transpiração mais estável

• Melhores condições radiculares

• Uma colheita mais previsível

Uma estufa de plástico não deve transformar-se numa armadilha de calor.

Quando é bem gerida, oferece à planta uma liberdade controlada: proteção suficiente para evitar danos, ventilação suficiente para respirar, água suficiente para se arrefecer e luz suficiente para continuar a produzir hidratos de carbono.

A otimização do verão não consiste em forçar o crescimento.

Consiste em eliminar o fator limitante que impede esse crescimento.

Um grau a menos ao nível da folha, mais uma hora com os estomas abertos, um pulso de rega aplicado no momento certo e uma copa mais bem ventilada podem determinar se a cultura apenas sobrevive ao verão ou continua a construir produtividade.

Referências

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Smrke, T., Veberic, R., Hudina, M., Zitko, V., Ferlan, M., & Jakopic, J. (2021). Fruit quality and yield of three highbush blueberry (Vaccinium corymbosum L.) cultivars grown in two planting systems under different protected environments. Horticulturae, 7(12), Article 591. https://doi.org/10.3390/horticulturae7120591

Ullah, I., Toor, M. D., Yerlikaya, B. A., Mohamed, H. I., Yerlikaya, S., Basit, A., & Rehman, A. U. (2024). High-temperature stress in strawberry: Understanding physiological, biochemical and molecular responses. Planta, 260, Article 118. https://doi.org/10.1007/s00425-024-04544-6

Yu, X., Zhang, Y., Zhao, X., & Li, J. (2023). Systemic effects of the vapor pressure deficit on the physiology and productivity of protected vegetables. Vegetable Research, 3, Article 20. https://doi.org/10.48130/VR-2023-0020

Hortitool Consulting, Lda é uma consultora técnica agronómica especializada em culturas de pequenos frutos, com foco em soluções práticas, inovação técnica e transferência de conhecimento aplicado. Fundada em 2015 em Faro, Portugal, a empresa nasceu da experiência de campo do seu fundador, Jorge Duarte, que trabalha com culturas como morango, mirtilo, framboesa, amora e groselha desde 2004.

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